É o MOF #9 / by AK47

MOF.

Era pra ser apenas uma reunião de grafiteiros. Mas pelo que percebo o Meeting Of Favela, maior evento voluntário de Graffiti do mundo, é muito mais do que tinta, é muito mais do que arte, é muito mais do que muros.

Há 9 anos esse encontro acontece por mera vontade e persistência de pessoas muito especiais, que hoje levam para a Comunidade da Vila Operária mais benefícios que qualquer um poderia esperar. No último domingo, dia 30 de Novembro, o dia começou com várias atividades dentro do colégio no centro do morro. Enquanto eu escrevia o nome dos grafiteiros recém chegados ao evento nas etiquetas de identificação, ouvia as gargalhadas da criançada da favela se divertindo com as peças de teatro, via meninas correndo com seus novos penteados, sentia o cheiro bom que vinha da cozinha, e percebia o espanto de alguns que contemplavam a primeira exposição de arte que visitaram na vida.

O MOF quebrou muitas barreiras. Isso é inegável.

Se não fossem pelas latas de tinta que se espalhavam por todos os lados, eu esqueceria que era um encontro de grafiteiros, e acharia que era um dia de ações beneficentes promovidas pelo governo dentro da favela. Mas não, era o MOF mesmo, evento construído pela força da massa.

MULTICULTURAL. É assim que o MOF acontece hoje, fruto de um misto absurdo de culturas de várias partes do Brasil com pitadas internacionais.

Ainda pela manhã, senti o chão tremer. Devido minha ignorância musical, não sei dizer se era um maracatu, um batuque africano legítimo, ou um som regional nacional. Só sei que os tambores estavam cantando alto do lado de fora pelas mãos de uma galera que trouxe sua música de Viçosa, Minas Gerais. Eles faziam todo mundo se mexer. Verdadeira orquestra na Rua. Gente que nunca tinha ouvido aquilo sorria como se esperasse por aquele momento.

Se tem uma coisa boa no MOF, é a oportunidade de encontrar com a rapaziada que a gente gosta, poder falar merda sem fim e rir disso tudo. Se você não focar no teu muro e partir pra pintura, a zueira toma conta e o dia voa. Normalmente nem pinto nada no domingo de evento. Como diz um amigo nosso: "- O ano tem 365 dias pra pintar. Dia de MOF é pra rever os amigos!"

A quadra é o fervo, caldeirão onde mil coisas acontecem. Este ano o lugar foi espaço para uma feira com várias "pseudo barraquinhas", que vendiam desde tinta à camisetas para os grafiteiros ... foi também palco para bandas e Dj's, pista para a galera do skate, ringue para o duelo de Mc's, salão de baile, pista de dança para os breakers, e por aí vai. Várias vertentes da Rua ali dentro, tudo junto, e misturado harmoniosamente.

Durante a tarde caminhamos pela comunidade com o foco de registrar exclusivamente o tema "GRAFFITI". Não conseguimos. Falha na missão!

O MOF mexe com todos.
A favela é linda.
As pessoas cativam.
A música toma conta de tudo.
Cores, texturas, revelos, sorrisos.
Tudo te distrai.

O que era pra ser um registro frio e objetivo das pinturas nos muros daquelas casas, se tornou uma sessão de fotos muito aberta. Enquanto uns fogem das câmeras e escondem seus rostos, outros posam como se tivessem nascido para aquilo. A dúvida do que pode ou não ser fotografado sumiu. A gente não precisava procurar mais o que registrar, pois os registros se mostravam pra nós sem a influência da nossa vontade.

É interessante demais, depois das viagens do Keep It Real pelo mundo, perceber que não importa o lugar onde estamos, a cena underground da Rua é uma só.

Não há máxima maior do que RESPEITO!

Ahhhhhhh ... e pra não dizer que não falamos de Graffiti, seguem abaixo alguns clicks das pinturas que posaram pra nós, haha.

Dessa vez tudo parecia vivo e mutável. Não havia uma pintura quietinha na parede, sem conversar com quem passava. Não deu pra tirar fotos das obras prontas, finalizadas, frias, mortas. Foi um dia sim pra ver o ser humano com a mão na massa, criadores e criaturas num movimento só. Foi um MOF pra ver o Graffiti vivo, se mexendo, crescendo que nem uma planta que toma o cenário urbano de volta pra ela.

Terminando o dia. Canseira máxima. Subimos as ruas de volta até encontrar o tradicional painel de personagens que é renovado anualmente. Mais uma vez, oportunidade perfeita pra rever amigos e gênios do Graffiti.

Com "Guerra de Tinta" como tema do painel, uma sequencia de personagens atacava o alvo com jatos e respingos de cores diversas. Da esquerda pra direita, um monstro mais talentoso que o outro: CELO + MONE + JOHNY C + METON + HEITOR CORRÊA + MEMI + PAKATO + JR EU + LELIN.

Na hora de ir embora, sensação de que o evento foi curto demais, que não deu tempo de conversar com todo mundo, que vai demorar muito até que o próximo MOF aconteça. Sem ter como abraçar todos, a gente pagou a mochila e colocou o pé na estrada denovo, sabendo que outro evento como o MOF não há. E nem haverá!

Então, fica declarado aqui abertamente, de coração:
- felicitações sem fim à toda família que pudemos reencontrar,
- um salve carinhoso aos que não puderam comparecer,
- agradecimentos verdadeiros aos que nos recebem sempre de braços abertos,
- e os parabéns mais que merecidos à POSSE 471 e voluntários que trabalharam na correria, responsáveis pela produção do evento mais amado do mundo.

Tamo junto. Nos vemos no próximo MEETING OF FAVELA.

Pra você que curtiu esse artigo e que quer ver mais registros desse evento, clique aqui, e veja também a cobertura do Pré-MOF.

(Imagens deste post por Karol Agante e AK47. Texto por AK47.)