Voltando Voluntariamente para Casa / by AK47

O Projeto Keep It Real procura sempre se manter fiel à expressão que nos dá nome. Sim, a gente faz de tudo pra ser verdadeiro, legítimo, REAL. Em nosso entendimento, é uma obrigação tornar público todo episódio marcante pelo qual passamos em nossas viagens, seja ele feliz ou não.

Como alguns de vocês já sabem, a equipe do Keep It Real levou uma rasteira ao começar a temporada que faríamos de costa à costa nos EUA, mostrando a transição do estilo do Graffiti. No último dia 26 de Abril, ao pousar para fazer a conexão entre Atlanta e NY, acabamos sendo detidos para averiguação e passamos aproximadamente 14 horas em salas de segurança do setor de imigração. A gente resumiu a história no texto abaixo, com total respeito às autoridades e aos procedimentos à que fomos submetidos.

Nós não temos a intenção de ofender, satirizar ou brincar com esse assunto. Só contamos o que aconteceu naquele dia em virtude do compromisso que a gente tem com os que acompanham nosso trabalho, e na intenção de evitar que outros viajantes passem pela essa situação complicada e embaraçosa.

 

- Por Que Visitávamos os EUA?

Como descrito em nosso site na aba "O Projeto", o Keep It Real é uma iniciativa independente que conta com uma programação de alguns anos de viagem pelo mundo dividida em temporadas. A 3º temporada do projeto tratava de cruzar os estados unidos de costa à costa, entre New York City e Los Angeles, passando por picos clássicos da cultura de Rua como Philadelphia, Detroit, Chicago e Las Vegas. Por isso nossa visita aos EUA.

- Chegando em Atlanta

Nosso vôo partiu do Rio de Janeiro no dia 25 de Abril, e depois de aproximadamente 10 horas, aterrizamos no aeroporto de Atlanta para passar pelas autoridades de imigração. Esse aeroporto é conhecido como um dos mais severos nas avaliações e entrevistas com os imigrantes, com relatos de vários casos descritos por viajantes na internet. Logo após o pouso nos encaminhamos para o primeiro balcão e fomos atendidos por um oficial com tom irônico. Ele satirizou o motivo de nossa viagem, o período que permaneceríamos nos EUA e a origem do dinheiro que carregávamos. Fez piada ao achar esquisito nossa família simplesmente "deixar a gente viajar sem rumo". Fomos encaminhados para um segundo balcão.

- Pente Fino

Uma sala com paredes de vidro, onde uma porta automática se abriu para que aguardássemos. Ninguém nos disse porque estávamos ali e fomos orientados à esperar. Assentos de metal, um relógio de parede, um bebedouro e banheiros. Eram por volta de 7h da manhã. Junto de nós, diversas pessoas de várias nacionalidades, naturalmente cansadas depois de tantas horas de viagem. Muitas delas não falavam inglês, e pudemos percebemos que tradutores nem sempre estavam disponíveis. Depois de uma hora minha esposa foi chamada, sozinha.

Fomos entrevistados e interrogados diversas vezes ao longo do dia sempre separados um do outro. Provavelmente este método de investigação é feito para ver se as respostas do casal são compatíveis, procurando falhas. Como não temos motivos para mentir e falávamos a verdade, isso não nos preocupava.

- Primeiras Entrevistas

As primeiras perguntas eram simples: "por que estávamos viajando", "para onde estávamos indo", "quanto dinheiro carregávamos", "quais eram nossas intenções nos EUA", etc. O objetivo daquela conversa parecia ser encontrar provas de que nós estávamos entrando nos EUA para morar e trabalhar ilegalmente. Mesmo que isso nos parecesse uma idéia idiota tratamos os oficiais com total respeito e paciência, sabendo que nossa entrada dependia, além de tudo, de boa vontade de quem nos entrevistava. Em certo momento, prestei esclarecimento à dois oficiais ao mesmo tempo, tive que mostrar as notas de dólar que carregávamos conosco para provar que tínhamos dinheiro suficiente para a viagem. Um dos oficiais levantou a voz para mim e disse estava perdendo tempo em mentir, e que minha esposa já tinha contado sobre meus problemas com a polícia e sobre meus antigos trabalhos ilegais. Expliquei que provavelmente algum mal entendido acontecera, e que nunca havia trabalhado ilegalmente nos EUA, muito menos tivera problemas com a polícia. Antes de terminar minha entrevista, outro oficial nos interrompeu e pediu informações para pegar nossa bagagem na esteira, e por isso percebi que essa novela estava apenas no começo.

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- Continuando os Interrogatórios

Perdemos a conexão para NYC. Fui atendido por outro oficial que acompanharia meu caso até o fim. Mais uma vez me foi dito que "eles já sabiam das minhas infrações" e que seria mais fácil se eu cooperasse. Fui convidado ir pra uma sala privada. O oficial mais uma vez blefou: pegou algumas folhas de papel, e disse que ali estavam listados as minhas infrações, e que eu deveria assumir tudo o que fiz. Ele disse ter um registro dos meus trabalhos ilegais, e dos problemas nos quais me envolvi. Entretanto, minutos depois esse oficial se distraiu e virou as folhas que teriam esse registro, e pude ver que as folhas estavam em branco. Velho método para tentar tirar uma confissão de alguém.

O oficial disse que era experiente, que conhecia a cultura de Rua e a cultura Hip Hop. Disse que conhecia o Graffiti e como a arte de Rua acontecia. Ao ser questionado sobre o Projeto Keep It Real, contei que se tratava de uma iniciativa independente, que recebia apoio e patrocínio de diversas marcas do Brasil e exterior. Neste momento o oficial riu, disse que este tipo de patrocínio não existe, e que não acreditava em nenhuma palavra do que eu dizia. Mais uma vez fui relembrado que sairia preso dali com minha esposa caso nossas respostas fossem discrepantes.

- Lonnnnnnnga Espera

Novamente dentro da sala de parede de vidro, esperamos pacientemente por horas e horas. Devido à problemas de circulação Karol teve que se deitar no chão e colocar as pernas pra cima sobre os bancos. Por causa ao cansaço tive que deitar e cochilar um pouco. Ambos estávamos com muita fome, não nos era permitido comprar nada para comer.

Mesmo com paredes que isolam o som, pudemos ouvir oficiais contando uns para os outros nossa história. Muitas vezes falavam com descaso e ironia. Se referiam às nossas respostas como mentiras descaradas. Brincavam com o fato de termos patrocinadores e diziam que isso era impossível. Diziam em alta voz que a gente ia voltar pra casa.

Enquanto as demais pessoas que passavam pela sala eram liberadas em 30 ou 40 minutos, nós já estávamos lá por mais de 6 horas. Imaginei que demoravam por estar pesquisando nossa vida através de documentos, análise das nossas mídias sociais e blog. Mais tarde viemos a descobrir que era exatamente isso que estava acontecendo.

- O Anúncio

Karol foi levada à uma sala para mais um interrogatório detalhado sobre sua vida pessoal, sob juramento e na companhia de uma tradutora. Foi avisada que em caso de falha nas suas respostas poderia ser presa. Depois da vasta pesquisa que havia sido feita por eles enquanto esperávamos, Karol teve que falar sobre sua família no Brasil, detalhes de trabalho, e passar por várias "pegadinhas" para ver se caia em contradição. Por fim recebeu a notícia que seu visto seria cancelado e que ela podia optar por deixar o país voluntariamente, ou ser deportada.

Enquanto isso, em outro balcão, passei pelo mesmo juramento, entretanto, sem o auxílio de tradutor, o que dificultou bastante o entendimento de questões legais de suma importância. Após ser alertado que poderia ser preso por falhar nas respostas, recebi uma extensa lista de perguntas para esclarecer situações. Por fim, me foi anunciado que meu visto estava sendo cancelado, e que eu podia me voluntariar para sair do país, ou seria deportado.

Sinceramente prefiro não descrever em detalhes esta última entrevista pela qual passamos. Apenas digo que foi proposta uma história mirabolante em cima das informações encontradas em nosso blog e mídias sociais que provaria que estávamos entrando nos EUA para trabalhar e morar ilegalmente. Fatos bastante distorcidos. Era realmente muito desgastante explicar tudo várias vezes, evitando cair nas armadilhas para nos incriminar. Tomada digna de um filme policial de Hollywood.

- Dicas Para Retornar aos EUA

Na última entrevista o oficial que me atendia se mostrou muito mais simpático e solícito. Ele disse que pessoalmente se identificou com nosso caso, e que acreditava na minha versão da história. Entretanto, apesar de "estar do meu lado" não poderia reverter a situação pois trabalhava em um departamento com um chefe que não acreditava nas minhas explicações. Conforme ele, muita gente falsifica sites e inventa projetos para entrar no país.

Aquele oficial chegou à me dar dicas para que eu conseguisse novo visto e permissão de entrada, aconselhando que eu continuasse com o Keep It Real em outras temporadas em outros países, e depois de alguns anos pedisse novo visto. Segundo ele, ter um histórico de viagens para outros continentes ajudará muito à provar que o Keep It Real é legítimo e que nós não temos intenções de morar ou trabalhar ilegalmente nos EUA.

- O Lounge

Fomos conduzidos à uma sala que eles chamaram de lounge, isso mesmo, LOUNGE! Trata-se de uma cela de espera final, para onde vão todos os deportados e voluntários à se retirar do país. Neste espaço não pudemos entrar com nossas mochilas, pertences pessoais, celulares, pulseiras, cintos com fivela e brincos. Tudo para a nossa própria segurança!

Lá dentro, alguns sofás, poltronas, edredons (alguns deles bastante sujos), uma mesa com quatro cadeiras, uma pia, um banheiro e uma parede de vidro a prova de som, por onde somos olhados pelos policiais que passam pelo corredor. Nada de rádio, televisão ou relógio, que faz daquele cubículo uma sala de ansiedade e tédio. Fomos recebidos por uma oficial gente fina que nos trouxe um café e uma refeição congelada de microondas.

Digo com segurança que a comida não é apenas ruim, mas sim HORRÍVEL. De 10 pessoas detidas apenas uma conseguiu comer "aquilo" ... e essa pessoa fui eu, haha. Os outros 9 detidos tiveram ânsia de vômito ao tentar comer a refeição ou foram atacados por alergia aos condimentos e pimenta. Karol ficou com olho inchado e dificuldade de engolir após 3 ou 4 colheradas da mistura, e apelidou o prato de "risoto de lavagem". Eu, por ter estômago de avestruz e estar com muita fome, comi a minha refeição e todo o resto dos demais detidos, haha!

- Outros Escolhidos

Dividindo espaço conosco na mesma sala encontramos uma brasileira, queimando em febre, que havia sido levada algemada ao hospital horas antes. Ela disse nunca ter passado por uma vergonha daquelas, ao ter que cruzar o aeroporto com algemas e escolta policial e andar presa num carro de polícia. Naquela mesma tarde vimos aquela menina ter sua privacidade totalmente quebrada, quando policiais abriram a força a porta do banheiro em que ela estava enquanto usava a privada.

Se passar por todo esse episódio em casal já foi bastante incômodo, pude perceber que provavelmente é muito pior estar sozinho numa hora dessas.

Nesta mesma sala encontrava-se outro brasileiro, natural de Minas Gerais, que por não falar nenhuma palavra de inglês foi vitima de algumas piadas. Durante a noite, no lounge, este mineiro misturava água da torneira com saquinhos de açúcar para beber, na tentativa de diminuir sua fome.

- Limpando a Bagunça

Karol passava mal de fome e estava fraca. Expliquei ao oficial responsável que a refeição servida mais cedo gerou uma forte alergia em Karol. O policial disse que era uma pena pois só havia aquilo para oferecer.

Perguntei então se alguém poderia nos conseguir um café para aliviar seu mal estar. Como resposta a oficial olhou nos meus olhos e disse: "- Primeiramente, eu não faço café para ninguém. Em segundo lugar, se você arrumar essa bagunça posso te trazer um copo d'água.", enquanto apontava para a mesa da sala com a sujeira deixada pelos últimos detidos que passaram por lá. Ao arrumar a bagunça que nem mesmo era minha, ela nos trouxe copos de água da torneira com gosto forte de cloro.

- Hora de Embarcar de Volta

Fomos chamados para embarcar para o Brasil. Ao caminhar para o avião ficamos isolados do público comum, escoltados por policiais. Eu, Karol e o mineiro que haviamos conhecido fomos guiados através de corredores, onde mais uma vez ouvimos comentários indelicados. Acho que estes policiais não imaginavam que eu entendia tudo o que conversavam.

- Chegando no Rio de Janeiro

Calorosamente recebidos pelos policiais brasileiros, fomos questionados: "- O que os gringos arrumaram com vocês dessa vez?". Nos contaram que casos como o nosso são comuns, e que muitas vezes o controle de imigração não tem motivos palpáveis para negar a entrada à brasileiros.

A verdade é que muitas vezes o departamento de imigração nega permissão de entrada à estrangeiros não somente em virtude de crimes ou infrações cometidas no passado, mas sim por suposições (muitas vezes infundadas) de possíveis infrações futuras.

Segundo os policiais federais "isso é um verdadeiro esculacho com o Brasil! Enquanto nós recebemos muito bem todos os gringos aqui, eles mandam de volta uma porrada de brasileiros mesmo sem terem provas de nada".

- Finalmente

Saímos do aeroporto do Rio de Janeiro, vestindo as mesmas roupas com as quais entramos quase 40 horas antes, sujos, suados, com fome, cansados, doloridos, estressados, humilhados, com um prejuízo de quase 9 mil reais. Fomos submetidos à tratamento muito questionável para um país que tem relações diplomáticas com o Brasil.

É bom lembrar que o presidente americano Barack Obama anunciou recentemente em imprensa internacional que facilitaria a entrada de brasileiros que viajam frequentemente ao seu país. Nós temos em nosso histórico de viagens 10 visitas aos EUA sem nenhum problema com as autoridades, Karol tem inclusive dupla cidadania e passaporte europeu ... e ainda assim fomos enviados de volta para casa com nossos vistos rasurados e cancelados por uma suposição de possível infração que nunca aconteceu.

- Respeitosamente

Mais uma vez afirmamos que não queremos satirizar ou brincar com as autoridades americanas ao postar esse artigo. Escrevemos apenas pelo compromisso com quem acompanha nossas viagens e se importa com o Projeto Keep It Real. Além disso, acho que nossa experiência pode evitar que outros viajantes passem por essa mesma novela sem necessidade.

- E agora? Vai ter Próxima Temporada?

Hahahaha, MAS É LÓGICO! Como diz aquela frase de para choque de caminhão: "Noiz capota mas num breca!", haha. Como sempre falamos, o Keep It Real é um projeto que busca meios de viajar pelo mundo todo visitando cidades importantes dentro da cultura de Rua em todos os continentes. O mundo é grande demais e temos muitas temporadas planejadas em nosso roteiro.

Vamos fazer suspense por mais alguns dias, e em breve a gente conta pra você nosso novo destino. O que a gente pode garantir é que a próxima temporada vai ser pedrada, haha, e que estamos mais empolgados do que nunca pra colocar o pé na estrada denovo!

- Nunca Sozinhos

Andamos sós mas não nos sentimos sozinhos. Aproveitamos para agradecer mais uma vez à toda a galera que nos apóia e acompanha nossas viagens pelo Blog, Facebook, Instagram e Vimeo. Independente do que acontecer, mesmo longe, tamo junto!

Keep Moving Forward, Keep Your head Up, Keep It Real.

Noiz.

(As fotos desde post que mostram AK47 e Karol, foram tiradas de seus celulares. As demais imagens foram encontradas em sites de busca e tem cunho meramente ilustrativo, uma vez que fotografias não puderam ser tiradas durante o período em que estiveram detidos. O texto deste post foi escrito por AK47.)