Além do Crack / by AK47

Outro dia quente, MUITO QUENTE. Fomos recebidos na terra do crack com muitos olhares. Percebi logo que éramos observados muito mais pela curiosidade (e carência) do que por mera hostilidade. Figuras bizarras? Muitas! ... mas nesse mundo torto em que a gente vive, quem não é bizarro que taque a primeira pedra.

Esses quarteirões não são mais como eram há bem pouco tempo, e o processo de "limpeza social" que os programas públicos tem feito deram novos ares de civilização para a região da Cracolândia. No dia da nossa visita as multidões de "moradores" dividiam espaço com muitos policiais civis, militares e guardas municipais ... além de dezenas de funcionários da prefeitura uniformizados trabalhando em programas de auxílio à viciados. As filas para pegar café e pão com manteiga eram longas ... mas ainda muito menores do que os aglomerados que fumavam mais uma pedra.

Logo de cara percebemos que nem só de crack vive a Cracolândia. Muito mais do que fumar outra pedrinha, tem gente que só quer 1 ou 2 minutos de atenção ... assim como qualquer outro organismo vivo.

Ao lançar os primeiros traços de tinta na parede, uma dupla de policiais caminhou até nós para dar fim a brincadeira. Num lance de sorte, só deu pra evitar uma problema maior com as autoridades pela intervenção de uma tiazinha gentil moradora da região, que vibrava com nossas cores. Segundo ela "a Cracolândia já era feia demais sem cores, e que ter arte naqueles muros era uma maravilha".

Apesar de fazer apenas pinturinhas rápidas, o sol tava de matar, o cheiro de merda causava ânsia, e a visão de um balde de tinta cheio de vermes era desagradável. Típico rolê trash.

Enquanto a gente trabalhava em algumas paredes, zumbis nordestinos derrubavam outras catando tijolos para serem vendidos na esquina. Enquanto uns viciados agressivos ofendiam a gente, outros mostravam no muro que também sabiam fazer arte ao desenhar figuras engraçadas.

Ví um cara tomando banho num vazamento na calçada fora do muro ... praticamente a visão de um oásis no deserto. Ao perguntar se poderíamos dividir aquele chuveiro com ele, um sorriso aberto mostrou que a gente era bem vindo. Fez questão de ser educado e gentil. Agradeceu pela companhia. Aquele camarada tinha mais conteúdo do que muito doutor formado, e em poucas linhas de conversa deu vários tapas na cara da "sociedade anestesiada" e da "classe política que nos serve".

O cara nasceu em SP, fugiu de casa com 8 anos de idade, mora na rua sozinho. Mantém o bom humor com coisas pequenas, presa pela sua liberdade, acredita que esse mundo está perdido, diz que essa terra só tem salvação quando Jesus voltar. "E ELE VAI VOLTAR" - disse com certeza absoluta.

Como ele mesmo disse e repetiu: "- Muitas vezes a gente só quer FALAR, só quer botar pra fora o que sente e o que pensa sobre as coisas. Além de Nóias e Cracudos perdidos que querem continuar nessa vida, a Cracolândia abriga muita gente que tem cultura, que tem sonhos, que tem história. A gente não está aqui só pra fumar pedra ... a gente está aqui pra se juntar com outros iguais, pra tentar se sentir menos só numa cidade que está lotada de gente."

Longa vida aos verdadeiros ... JAH BLESS US ALL!

(Fotos por Karol Agante e texto por AK47)