Passado Intocável / by AK47

Na Temporada Europa passamos por muitas atmosferas diferentes. Alguns lugares tinham música estridentes, outros silêncio total. Algumas paisagens eram imóveis, outras mudavam o tempo todo. Alguns picos nos passavam total segurança, outros completa incerteza.

Logo nos primeiros dias de viagem acabamos nos hospedando em um lugarejo no interior rural de Portugal, onde a vida parece ter parado. Como sempre, fazemos em todas as nossas paradas uma "exploração urbana", caminhando sem rumo, seja dia ou noite. Sempre sem orientação de ninguém. Conhecemos as ruas por nossa conta.

Não demorou muito para percebermos que aquele era lugar era uma ilha.
Isolamento.
Silêncio.
Ar seco.
Plantações sem fim.
Rusticidade.
Atemporalidade.
Fuga.
Esconderijo.
Casas sem moradores.
Bicicletas sem crianças.
Prateleiras sem produtos.
Calçadas sem pedestres.
Tardes calmas, e sem nenhuma vida.
Sensação de um estado de dormência constante.

A vila não era calma de forma depressiva, mas sim relaxante, me provocava total introspecção. Cada viela parecia ser cenário de um filme, uma cidade fantasma, um lugar onde o tempo não anda e há chance pra pensarmos e sentirmos. Por algum motivo eu não queria interferir naquilo, e não rabisquei nenhum tag. Nenhum.

As portas que tanto me atraem e normalmente servem de suporte para meus stickers e tags dessa vez permaneceram intactas. Talvez meu vandal seja fruto da doença que a cidade me causa, e aquele lugar parecia a cura. Vontade de pintar tinha, só não consegui minha "auto-aprovação" pra isso.

Quiz passar por lá sem deixar marcas.

Acabei sendo marcado.

(Fotos por Karol Agante e AK47. Texto por AK47.)