Noiz Tarda, Mas Nunca Falha / by AK47

Olá querida massa que tanto amamos. Como estão?!

É com grande alegria que depois de muitas semanas em estado de “retiro psicológico” que retomamos o contato com vocês. Sim, depois de um período essencial de recuperação pós traumática, recomeçamos o trabalho sistemático do Keep It Real, postando aqui um pouco da nossa vida da estrada e das nossas experiências. Não vejam ironia quando dizemos que sentimos falta de vocês e que estamos muito empolgados com a retomada do nosso trabalho.

Como sabem, nós passamos a maior parte do nosso tempo com a mochila nas costas viajando o mundo através da Cultura de Rua, postando flashes dessa caminhada 2 ou 3 vezes por semana aqui em nosso blog. Mas como devem ter percebido, já faz muito tempo que sumimos da vida virtual. Mas nossa ausência tem uma justificativa bastante plausível, e vamos contar tudo o que rolou nas linhas abaixo. Então, senta que lá vem história, haha.

 

- ANDANÇAS PELA EUROPA, A TERCEIRA TEMPORADA DO PROJETO -

O Keep It Real é um projeto de viagem dividido em temporadas, onde vivemos a Rua da forma mais intensa possível. No ano de 2013 exploramos NYC, onde a Cultura hip Hop teve início. A segunda temporada foi vivida no Brasil, onde visitamos várias cidades. Até que em Junho de 2014 resolvemos juntar os trapos e partir para a Europa, com foco nas expressões artísticas de Rua que existem por lá. Traçamos uma rota de 3 meses entre Portugal e Espanha, passando pela Bélgica até chegar à Holanda. Como de costume, nossa trip é planejada para ter baixíssimo custo e luxo zero.

 

- NOSSO SURPREENDENTE PORTUGAL -

Portugal se mostrou muito mais receptivo, rico e intenso do que a gente imaginava. A verdade é que a gente se apaixonou pelo país, e a nossa vontade era ficar por lá mesmo. Inicialmente pensamos que passar um mês em terras lusitanas seria o suficiente, mas estávamos totalmente enganados. Aquela terra ferve, e a cena do graffiti é “altamente brutal”.

Tudo correu extremamente bem, e conhecemos várias facetas da Rua. Tampamos na porrada em mega shows barulhentos em Vila Nova de Gaia. Dormimos dentro do carro. Pernoitamos na casa de estranhos. Trocamos de roupa na calçada. Passamos dias acampados em beira de estrada. Participamos de festivais populares em Sines e Porto Covo. Tomamos banho de chafariz. Viramos noites em bancos de praças públicas de Lisboa. Fizemos caminhadas sem fim pelos becos e vielas da Cidade do Porto. Registramos missões de ataque aos trens por “grafiteiros fantasmas”. Passamos por bebedeiras com desconhecidos que se tornariam amigos para o resto da vida. Tudo fluindo perfeitamente bem.

 

- DERRETENDO NO VERÃO DA ESPANHA -

Na Espanha o calor do verão europeu subia, o ar ficava cada vez mais seco, e a trip ficava cada vez melhor. Imergimos nas estreitas ruas de Granada, que mais parece Marrocos, onde o graffiti é referência para o mundo todo. Exploramos a metrópole Madrid, onde as prostitutas oferecem seus serviços aos turistas em plena luz do dia. Dormimos em hospedarias familiares abafadas e mal cheirosas. Deliramos com os músicos e artistas de rua. Entendemos a história e a força da gigante cena de vandalismo nos trens da capital espanhola. Nos afogamos nas garrafas de cerveja de 1,5 litro e nas típicas Paejas Valencianas. Tatuamos nossa pele. Assistimos espetáculos teatrais em prédios invadidos e ocupações culturais. Visitamos cemitérios de trens que fazem parte da história do graffiti europeu. Pulamos de estação em estação até chegar na tão desejada Barcelona … onde a nossa casa caiu de vez.

 

- LEVANDO A MAIOR RASTEIRA DE TODAS -

Sim, a Europa é linda, mas é cheia das armadilhas. Diferente do Rio de Janeiro onde é normal ser assaltado a mão armada em plena luz do dia, a Europa é conhecida pelos “batedores de carteira profissionais”. O ato do furto não é só um hobby por lá, mas sim uma carreira onde muita gente passa anos se especializando. Sendo assim a gente sempre tomou muito cuidado, sempre se protegeu e manteve olho aberto o tempo todo. Só que todo mundo tem alguns instantes de distração todos os dias, e foi nessa que tomamos uma volta pesada.

Ao chegar de ônibus em Barcelona, por volta de 6 e pouca da manhã, com o céu ainda escuro, descemos na estação rodoviária Rodo Nord. Apesar de ser um terminal de ônibus pequeno e perto da uma delegacia de polícia, o pico é um antro de quadrilhas que roubam e furtam a galera que chega na cidade de forma quase mágica. Foi num piscar de olhos que perdemos nossa “arca do tesouro”: uma pequena mochila que continha todo nosso equipamento de trabalho.

Fachada do terminal de ônibus conhecido como "Estação Nord", em Barcelona, local de cerca de 10 casos de furto diariamente, segundo a polícia. Foto extraída do Google Street View.

Vista superior da "Estação Nord", local de fácil fuga sem intervenção da polícia. Foto extraída do Google Street View.

Mesmo pra quem é safo na Rua, mesmo pra quem anda acompanhado é fácil perder alguma coisa ao passar por um pico desses. Cada golpe dessas quadrilhas é planejado ao extremo, e contam inclusive com a ajuda dos seguranças da rodoviária (que fazem parte do esquema) e de falsos policiais que rondam o local. É foda, mas se você for escolhido como alvo, sinto em dizer que não há nada que tu possa fazer. Mesmo que você se considere o “Super-Man do Rolê”, não dá pra lutar contra um esquema tão bem montado que conta com um grande time de vagabundos graduados.

Pra quem viaja muito e quer conhecer lugares da Europa como Lisboa, Barcelona ou Roma, é importante ter em mente que são muitos os golpes utilizados, e normalmente você só vai cair na real quando for tarde demais. No nosso caso, caímos numa historinha que chamamos do “golpe do cocô de gaivota”, onde haviam pelo menos 6 pessoas envolvidas no ataque. A gama de métodos pra roubar turista é vasta, e vai desde senhorinhas que te param para pedir informação, abordagens feitas por falsos policiais que vestem fardas roubadas, criancinhas perdidas pedindo ajuda, etc. Pra se precaver, dê uma olhada neste link, onde muitos desses golpes estão explicadinhos pra você evitar se fuder como nós. Em breve vamos postar um artigo detalhando sobre o golpe que rolou com a gente. Apesar de não curtir ficar remoendo o que já passou, acho que nossa experiência pode ser útil para outros viajantes.

Imagens que mostram a ação constante de "profissionais do furto", contando com a participação de crianças, jovens, e idosos. Imagens encontradas na internet em sites de busca.

 

- O TAMANHO REAL DO PREJUÍZO -

Foi uma longa caminhada pra conseguir montar nosso “estúdio ambulante”, e a noção real do prejuízo só foi tomando forma com o passar dos dias. Dentro da mochila roubada estavam nosso principal notebook de trabalho, cameras, lentes, Go Pro, cartões de memória, baterias, iPhone, HD’s de registro, documentos, passagens aéreas, dinheiro … além de TODO O MATERIAL QUE REGISTRAMOS DURANTE A TRIP.

Isso mesmo, perdemos todas as fotos e vídeos que fizemos na Europa … e como o Keep It Real é um projeto de registro, não é exagero nenhum dizer que roubaram tudo o que era precioso pra nós. Perdemos as entrevistas que fizemos com artistas da cena européia, as filmagens das missões de graffiti, as fotos das minhas pinturas, os registros dos ataques aos trens, milhares de fotografias insubstituíveis, horas e horas e horas de vídeos que não tem preço. Além de todo o prejuízo financeiro, ficamos sem equipamento para trabalhar, ficamos sem o material que captamos por toda a temporada, ficamos sem grana, sem identidade, sem chão.

 

- JUNTANDO OS CACOS, DE VOLTA AO BRASIL -

Qualquer viajante é um alvo fácil para a malandragem, pois inevitavelmente carrega muita coisa de valor em suas mochilas. Por mais simples que seja o andarilho, normalmente tem em sua bolsa um pouco de grana, uma câmera, alguns documentos e outros itens que os assaltantes procuram. Além disso, enquanto você viaja, passa por vários momentos em que sua bagagem fica totalmente desprotegida, como por exemplo quando tem de despachar sua mochila, ou quando tem de guardar seus objetos de valor num armariozinho vagabundo de algum albergue. Já soube de muitos viajantes experientes que tiveram seus pertences roubados dentro do hotel, ou furtados do bagageiro do ónibus, ou durante um vôo internacional. Na prática é impossível que o viajante se proteja o tempo todo, e mesmo os mais cuidadosos vivem situações que ficam muito vulneráveis. Essa é a natureza da estrada, e não dá pra fugir dela.

Situações em que qualquer viajante fica vulnerável, e suscetível à roubos e furtos em sua bagagem. Imagens encontradas na internet em sites de busca.

 

Sinceramente se formos avaliar a trajetória do Keep It Real, já era pra gente ter se fudido antes, haha. Já passamos por muitas situações de risco, como nas missões nas noites do Rio de Janeiro, nas incursões pelo bairro do Bronx e quebradas de São Paulo, caminhadas em vielas escuras na Europa. Sempre tomamos cuidado, mas a Rua junta todo tipo de gente com todo tipo de intenção. É bom lembrar que pra quem ama viajar esse mundão, nem tudo são flores.

Muita gente que viaja o mundo passou pelo mesmo perrengue que nós, como nossos amigos Vagner Alcantelado e Bárbara Rocha do projeto Melhores Momentos da Vida, que perderam parte de seu equipamento na Nova Zelândia (leia mais aqui) … ou o casal Leonardo Spencer e Rachel Paganotto do projeto Viajo Logo Existo, que também levaram um prejuízo ao passar pelo Chile (leia mais aqui). Enfim, a Rua é pra quem está disposto a correr riscos, e viver situações que não podemos prever. Viajar é terminar o dia de hoje sem saber como vai ser o dia de amanhã, é viver uma novela real onde não dá pra saber qual vai ser o capítulo de amanhã. Se você curte uma vida previsível e segura, aconselhamos que se esconda em casa, e faça um bom plano de saúde e seguro de vida, haha.

Casal Bárbara Rocha e Vagner Alcantelado, responsáveis pelo projeto "Melhores Momentos da Vida". Foto extraída do site oficial do projeto: www.melhoresmomentosdavida.com

Casal Leonardo Spencer e Rachel Paganotto, responsáveis pelo projeto "Viajo Logo Existo". Foto extraída do site oficial do projeto: www.viajologoexisto.com.br

 

- E AGORA, QUAL VAI SER? -

Já não é a primeira vez que levamos uma porrada séria, e que o Keep It Real passa perto de encerrar suas atividades. Como alguns de vocês devem se lembrar nós passamos por outro momento difícil em Abril de 2014, quando fomos vetados de entrar nos USA e saímos num baita prejuízo por causa das autoridades de imigração (leia o artigo completo aqui). Só que dessa vez o tombo foi muito maior, e chegamos a considerar seriamente o fim do Keep It Real em definitivo.

Mas, depois de muito pensar, temos boas notícias pra quem torce por nós: VAMOS CONTINUAR COM O KEEP IT REAL NORMALMENTE. Pra quem torce pra gente se dar mal, é melhor torcer com mais força, haha. Noiz é carne de pescoço, vaso ruim de quebrar, e mesmo mal das pernas a gente vai insistir no caminho que acreditamos ser o certo. Noiz capota mas não breca, entendeu?

Fotos tiradas no vôo em que "voltamos voluntariamente" dos EUA, depois de sermos impedidos de entrar em território americano melas autoridades de imigração.

 

- A SALVAÇÃO VINDA DO ALÉM -

O nosso receio maior era chegar no Brasil e não ter nada pra mostrar pra vocês. Alimentar um blog somente com textos, sem fotos ou vídeos, seria muito limitado. Mas foi aí que o “Poderoso Deus da Quebrada” nos deu a oportunidade de salvação, haha. Vasculhamos cada esconderijo online de nossas contas de email e redes sociais, além de backups antigos que tinha feito em meu computador. Por fim encontramos algumas centenas de fotos que salvaram nossa temporada. É verdade que conseguimos recuperar apenas 2% de todo o material que registramos, mas ainda assim, é melhor do que nada. Em outras palavras, podem ficar tranquilos que a gente vai conseguir sim postar muita coisa bacana nas próximas semanas sobre a temporada na Europa. Tem um pouco de tudo que a gente encontrou na viagem: arte de rua, música de rua, comida de rua, vida na rua. Portanto, como diria um sábio amigo nosso: “ - Vistam seus capacetes, pois lá vem pedrada!!!”

Durante as próximas semanas vamos postar em nosso Blog, Facebook e Instagram nossas mais valiosas memórias e experiências, sem censuras ou cortes. Sejam as situações que vivemos positivas ou frustrantes, nosso projeto tem o compromisso de expor o que aconteceu de verdade, afinal de contas, NÓS SOMOS O KEEP IT REAL, e mantemos o bagulho real, até o fim.

Agradecemos sinceramente por cada um que vibra positivamente pela nossa missão, e que direta ou indiretamente nos apóia. A gente não tem como citar o nome de todos os amigos e aliados, pois nossa família é grande demais, haha.

Mesmo longe, tamo junto. Noiz na estrada.

(Fotos por Karol Agante e AK47, exceto quando especificado em legenda. Texto por AK47.)