33 Anos de GHOF, 40 de Hip Hop! / by AK47

Há alguns anos estudo um pouco sobre a cultura Hip Hop, e por isso é inevitável saber algo sobre NYC, o berço de quase tudo que a gente vivencia atualmente nessa cena. Há bastante tempo leio sobre um evento chamado "GHOF" (o Graffiti Hall Of Fame), que acontece anualmente desde o início da década de 80 numa área chamada de Spanish Harlem. Até então eu sabia apenas que o tal evento acontecia em uma esquina onde graffiteiros da velha guarda pintavam seus trampos nas paredes a cada verão, e mais nada.

Fotografias por Martha Cooper em 1982. 

Foi então que há alguns dias a Karol encontrou um flyer de divulgação na internet, dizendo que a próxima edição do evento aconteceria no final de semana seguinte. No dia 13 de Julho acordamos no bairro do Brooklyn, sem saber direito o que iríamos encontrar, e partimos pra tradicional esquina da Rua 106 com a Avenida Park.

Chegamos cedo, ninguém podia entrar no pátio de um colégio que sempre abrigou o evento. Tivemos que esperar uns 15 minutos do lado de fora, ao lado de Fat Joe, que também aguardava pra entrar. Assim que passamos pelo portão percebi que o evento não era só graffiti, mas sim uma festa em homenagem aos 40 anos da cultura Hip Hop, com todos os elementos presentes. O dia estava abafado pra cacete, ameaça constante de chuva.

Logo no início do dia conheci o artista COL, membro da Wallnuts Crew - cara gente fina, isolado do mundo externo pelos fones de ouvido, focado no seu trabalho - com um resultado impecável. Fui apresentado à algumas lendas vivas do graffiti da década de 70 e 80 ... KING2, CLEIDE, REE2, LAVA, AWESOME. É estranho conhecer pessoalmente os artistas que indiretamente já conheço há anos através de livros e documentários sobre a história do graffiti. Os caras são os dinossauros dessa cena, e é engraçado ver um sacaneando o outro por causa das artroses e dores na coluna, rs. A velhice chega pra todo mundo, e os que um dia já foram "vândalos procurados pela lei", hoje não passam de avôs normais, com empregos normais, que em sua maioria não sabem usar facebook nem máquinas fotográficas como todo velho normal. Alguns desses caras saíram da loucura de NY e foram para lugares mais calmos como New Jersey pra ter sossego, mas a maioria deles ainda vive aqui, e pinta frequentemente ... legalmente, uma vez que os tempos mudaram, haha.

Pra quem não vai pintar muro, o que há de melhor é largar o braço nos black books. Em menos de uma hora, em umas mesas de pic-nic debaixo de um sol de rachar, mais de 20 grafiteiros se juntaram pra rabiscar no papel. Fumaça densa. Todo mundo aqui anda com um black book - livro de capa dura negra e páginas lisas de alta gramatura - onde coleciona assinaturas dos grafiteiros que encontra pelo caminho. As "black book sessions" são muito tradicionais aqui, e tem origem também na década de 70, e alguns desses livros viram peças de colecionador que o dono guarda como tesouro. Nesses encontros a gente acha pessoas que nem são grafiteiros, mas juntam assinaturas de monstros do graffiti desde a infância. Como um colecionador que conheci chamado "J", cara gente fina, fanático pelo graffiti desde os 7 anos, carregando o mesmo black book desde 1984. Atualmente o livro de "J" tem assinaturas de algumas das maiores lendas da rua, muitas delas já falecidas. Ví alguns outros fãns do graffiti com lágrimas nos olhos ao chegar ao evento e finalmente conhecer o artista que ele acompanha a anos. Fato que o amor pela cena underground aqui é real!

No meio de tanta gente e tantos blackbooks conheci caras como DOVER, HI, AMUSE, HD, SNOOZE, NIC 707, JESUS SAVES (o velho SPAIN), DEVO, ARC, e dezenas de outros. Enquanto as mãos trabalhavam no papel, os caras contavam muitas histórias dos tempos dos trens, das vezes que foram presos, das salvas de palmas que recebiam ao serem levados para a delegacia, das vezes que tomaram tiro, das milhões de vezes que tamparam na porrada pra manter seu nome no topo. Dentre as provadas verdades e os possíveis exageros, é no mínimo interessante demais pra quem ama o graffiti poder ouvir essas coisas contadas pelos próprios legendários. Enquanto coletava assinaturas pra minha coleção pessoal, muita gente pediu pra eu escrever em seus black books e telas, uma honra pra mim. Nesses encontros a oportunidade de fazer contatos com a galera daqui é demais.

No decorrer das horas, as caixas de som berrando somente os melhores hits clássicos do Hip Hop, apresentação dj's acrobáticos nas pick-ups, dezenas de b-boys e b-girls mostrando que a força da gravidade é relativa, famílias jogando basketball, garotas pulando corta, e uma infinidade de crianças em patinetes - um típico final de semana gringo. A cultura Hip Hop é foda, e como de costume, não segmenta os grupos e as famílias. Na verdade, pude ver mais uma vez o quanto Hip Hop coloca todo mundo junto, sejam graffiteiros, breakers, crianças, velhos, brancos, latinos, pretos, ricos ou pobres.

À cultura Hip Hop deixo aqui meus votos de longa vida e parabéns pelo aniversário. Até o presente momento já se foram 40 anos salvando vidas!

(Fotos por Karol Agante e texto por AK47)