Antropologia Urbana - Parte 02 / by AK47

(Esse post apresenta a continuação do texto de Maria Eduarda apresentado ontem. Se ainda não leu o artigo, clique aqui para ter acesso à primeira parte.)

Era quinta-feira e fazia um pouco frio – aquele frio que quando você coloca o casaco logo sente calor, mas também não agüenta ficar muito tempo sem. Recebi um convite de um amigo grafiteiro brasileiro para uma abertura de loja de tintas. Prontamente aceitei, e com um casaco – ora na mão, ora no corpo – peguei o metrô na 125st, no Harlem em direção ao Brooklyn. Cheguei. Fachada de loja simples. Dentro da loja: pinturas de graffiti e cheiro de tinta. Nos fundos, um quintal: pinturas feitas de spray nos muros, de pedra, numa paisagem cercada de concreto. Diferentes tipos de pessoas, mas não muitas. Cerveja – barata – de graça. Homens mais velhos - algumas barrigas (acho que tem algo a ver com parar de correr atrás de trens ou da polícia) – blackbooks (cadernos onde outros grafiteiros assinam suas tag, desenham, etc) na mão e uma cerveja na outra. Alguns com algum cd ou livreto para vender, pela bagatela de dez dólares. Foi quando percebi: simplesmente a nata do vandalismo novaiorquino. A vanguarda dos 70.

Em um momento, ouvi: “esses foram os caras que começaram a destruir Nova York.”, “Se tu pinta, hoje, deve muito a esses caras. “Estranhamente, me senti em casa. E pude compreender a paixão por todo esse processo – correr, fugir, cair, se machucar, pintar, sentir o cheiro da tinta, a adrenalina do ser e não ser visto, os laços que se reforçam com aqueles que se arriscam e pintam com você, e até o acordar cedo no outro dia para fazer uma bela foto do trampo. Foi uma ótima noite. Uns DVDs comprados, umas cervejas bebidas,ótimas conversas e contatos trocados. Fui embora antes do fim, havia aula no outro dia, bem cedo. 

Na minha turma de métodos etnográficos, curso que fiz em Nova York, os mais velhos me colocavam: “Você não sabe como eram os metrôs e os mapas dos metrôs há 20, 30 anos atrás, era horrível, um horror, tudo pintado.” Tive até que ouvir do prefeito Bloomberg, em uma press conference sobre reciclagem, o poder negativo estético do graffiti. Mas não, para mim tinta não é sujeira. 

No dia seguinte a quinta-feira, em uma exposição de graffiti no Harlem, na Malcom X avenue, conversei com um homem, ex-vandal (como se denominam os que pintavam ilegalmente há décadas atrás e não o fazem mais), por volta de 40 anos, e soube que nos anos 80, a política da prefeitura de NY, contra o bombing (quando se escreve seus nomes or palavras em alguma superfície – ilegalmente) era a troca constantemente os trens, e que isso o havia motivado a largar a graffiti – além de ter começado a vender drogas. Nesse mesmo evento, pude ver diversas obras, utilizando a técnica e a estética do graffiti, colocadas no interior de uma galeria. É, é isso, o graffiti tirou a arte das galerias para as ruas, e também tomou as galerias, agradando gregos e troianos e conquistando diversos espaços, nunca antes imaginados.

Em meio a todos esses acontecimentos, percebi que além de dominar o espaço urbano, o graffiti permeia a vontade de novos jovens, que miram os exemplos desses que abriram as portas para eles há anos atrás. 

Há a necessidade, individual e coletiva, da existência do graffiti. O cinza precisa de cor, o indivíduo precisar expurgar, a cidade precisa democratizar seus muros e suas propriedades privadas. O urbano precisa do graffiti, desse grito que sai a noite, que é ilegal, e que mexe com todos os símbolos e significados de um espaço – e das pessoas que nele vivem. Ontem o muro  estava branco, hoje está colorido com o nome de alguém. O que aconteceu? Esse espaço está disponível a interação? De que forma eu posso me relacionar com o espaço público? Além de admirar, ele é passível de atuação e intervenção.  

E, concordando e aproveitando-me da máxima de Diderot: “É bela a rua”, penso que ao interagirmos e nos apropriarmos dela, admirando ou intervindo, dialogando ou simplesmente criando um olhar diferente desse blasé que a imensidade de fluxo de idéias que o urbano nos trás, a rua se embelezará cada vez mais, uma vez que torna-se de todos.

Hoje, meu olhar passante pela cidade está sempre atento a esses gritos registrados nas paredes, a essa vontade de se construir sujeito em uma sociedade que em vez de entender, estudar alguns comportamentos, para melhor abordá-los, prefere punir e marginalizar, visando a ilegalidade de se pintar sem permissão no espaço público. Reconhecer-se e ser reconhecido no espaço é fundamental para muitos, que por algum motivos não conseguem se fazer ouvir nesse caos urbano moderno. É preciso que a sociedade veja o graffiti (tag, bomb, pixo, sticker, throw-up, stencil) com outros olhos, que entenda que a mensagem passada muitas vezes é uma tentativa de integração, de interação com o outro.  O símbolo deixado vai além do reconhecimento entre o próprio grupo, é também uma forma de mostrar que fazem parte da sociedade e que sentem a necessidade de serem vistos. Para esses, graffiti também passa a ser uma forma de socialização,  e, por mais que não seja visto dessa forma por alguns, é o modo como eles se reconhecem no meio.  

Despeço-me de Nova York com vontade de ficar, rodeada por todos aqueles nomes pintados e pessoas movidas pela mesma paixão. 

Na cabeça, em meio aquele rap bem alto no fone, meus pensamentos colorem-se em torno de uma vontade: voltar e continuar dando voz aqueles que, por vezes, só no muro conseguem se expressar.

“Dentro de mim mora um grito.
De noite, ele sai com suas garras,
 À caça 
De algo para amar.”
(Sylvia Plath)


Referências:

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1989

FABRIS, Annateresa. Fragmentos urbanos: representações culturais. São Paulo: Studio Nobel, 2000.

O desafio da cidade. Rio de Janeiro: Campus, 1980. VELHO, Gilberto. A Utopia Urbana : um estudo de antropologia social. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 198

BENJAMIN, W. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Editora. Brasiliense, 1989

Benjamin, Walter. O surrealismo. O último instantâneo da inteligência européia. In: Benjamin, Walter. Magia e técnica, arte e política. 7. ed., trad. de Sérgio Paulo Rouanet, são Paulo: Brasiliense, 1994,

(Fotos por Karol Agante e AK47 / Texto por Maria Eduarda Gimenes)