Antropologia Urbana - Parte 01 / by AK47

A gente conhece muita gente bacana no decorrer da viagem. E trocar idéia com essas pessoas acrescenta muito ao nosso intelecto, ajuda a compor uma visão mais complexa das coisas, e sem dúvida nos força à questionamentos que não tinha imaginado antes.

Uma das pessoas que trombou com a gente em NYC foi a Maria Eduarda, que me encontrou por indicação de um brother grafiteiro do Brasil que conheço de eventos regionais que participamos. Esse foi mais uma demonstração de como a galera da cena do graff é conectada e normalmente faz o corre pelo coletivo. Ela queria encontrar com a gente, e se possível ter mais contato com a cena under daqui, uma vez que a mina estuda algo que pode ser chamado de "antropologia urbana".

A gente foi à alguns eventos juntos, conversamos bastante sobre nossa relação com NYC. Depois que Maria partiu de volta pro Brasil, pedi a ela um texto sobre sua experiência na "Cidade Que Nunca Dorme", e ela me emocionou com a resposta. Esse post mostra o texto dela, com uma visão única sobre a cidade e suas vírgulas, com a qual eu concordo profundamente:

Nova York tem um gosto bom. Daquelas coisas que você tem vontade de devorar inteira, mas nunca acaba. 

Nessa enorme maçã há muitos turistas, do mundo inteiro, muitos recém chegados, todos na expectativa e idéia de colocar a cidade debaixo dos braços, como num abraço, mas ela não serve, não cabe, em ninguém. E ao mesmo tempo nela cabem todos. 

A rua de Nova York nos possibilita perceber isso. A rua é onde escrevemos nossos corpos e vontades no mundo. E em NY as trajetórias das pessoas podem nunca se cruzar. Gilberto Velho, renomado antropólogo brasileiro, utiliza um conceito chamado campo de possibilidades, no qual as pessoas vivem num campo sócio-cultural e nele possuem possibilidades múltiplas de escolhas e decisões. Quanto mais complexa a rede de significados (lugares de comunicação e exercício de poder, para Clifford Geertz) de um local analisado, mais intenso e complexo o campo de possibilidades, que acaba permitindo que muitas vidas se cruzem mas não se penetrem (com certeza você já assistiu a algum filme que ilustrem essa situação: Crash, Babel...). Exemplo: eu. Vivo, aqui nessa metrópole, meus papeis, com a minha rede de significados tão diferente do cara que estava sentado na minha frente no Starbucks tomando um café e tirando alguma foto para colocar no Instagram. E de alguma forma, tem grandes chances de nunca trocarmos uma palavra, e, inclusive, nunca mais nos vermos. A modernidade fez com que as pessoas começassem a se olhar, se cruzassem, passassem minutos de frente para as outras, nos ônibus e nos metrôs, e, então, seguissem suas vida. Sem nunca mais se verem. Em Nova York não há um código que abrange a todos. Não há uma única vontade, uma única língua, uma única ideologia.

A cidade urbana é palco de poder político, econômico, religioso, artístico e cultural. De acordo com Annateresa Fabris (2000): “desde a Revolução Industrial, tornou-se o espaço mais propicio a produção artístico- cultural”. É  é nesse urbano que essa intensidade na arte e na cultura acontece, toma lugar, “toma de assalto”, como dizem (na rua). A cidade é espaço – disputado -  possível para todos esses cenários, é palco das vontades e também da satisfação. Nela o artista consegue colocar suas obras, suas idéias, é a cada dia estimulado por esse fervo de diálogos e informações. Também é na cidade: “[...] que o confronto entre o presente e o passado se torna mais acirrado, gerando aquela mobilidade de signos e símbolos, que é a verdadeira essência da vida urbana e de seus produtos simbólicos.” (FABRIS, Annateresa, 2000, p.10).

Multidão, fluidez, gente – muita gente - movimentos instáveis e fugidios. Eu, refém desse vendaval de sentidos e da embriaguez que a cidade emana, perco minha dimensão individual e me entrego a esse emaranhado de cores, cheiros, idiomas e pensamentos. Tudo junto, mas quase sempre muito bem separado: Posso dizer que rua e Nova York combinam muito bem. Vejo muita gente morando nela, mas não é um morador de rua como costumava ver na maioria das vezes no Brasil. Muitos carregam seus colchões, seus bens, em carrinhos, e vivem nesse espaço tão saudado pelos rappers, por Baudelaire e por meus antropólogos preferidos: a rua. Por ela ser assim mesmo, palco de tanta coisa, e de nada. Por ser aquele mistério urbano. Aquela dialética da flanerie, que Walter Benjamin coloca quando fala de Baudelaire e do flaneur (personagem urbano, apaixonado pela cidade e pela multidão, e que tem como habito a flânerie, que seria a apreensão e representação desse espaço urbano): o homem se sente olhado por tudo e por todos, é suspeito, e por outro lado, é insondável, escondido. É  o pano de fundo da vida na cidade – e no graffiti, que falarei mais pra frente.

Aqui em Nova York a noite na rua é viva e morta. Realmente a cidade nunca dorme. Mas vive esse paradoxo urbano, que atinge os indivíduos que nela vivem: ela fica acesa e com um certo movimento todas as vinte e quatro horas  do dia. Mas a movimentação para a noite. Da mesma forma que as duas horas da manhã eu rodava pela Broadway buscando uma cerveja e não encontrava,  circulavam muitos taxis na rua, os letreiros permaneciam acesos e algumas (ou varias) pessoas circulavam. Realmente aquela questão: ser e não ser visto.  Considerando essa sociedade big brother – de Orwell – que vivemos, onde somos constantemente observados, lembro-me, então, da adrenalina do vandalismo – no caso da pixação/graffiti. E, a cidade, o urbano, a rua são palco de tudo isso.

Adrenalina, rua  e letreiros me lembram uma fala de Benjamim:

Como não lembrar do interventor urbano? O grafiteiro. Que prefere a rua ao salão do museu, os muros as paredes interiores. As cores ao cinza. Que ressignificam a arte, e, que, diante da repressão dessa multidão de cinza, cimentos e informações, encontram a necessidade de se expressarem, e fazerem desabrochar – acompanhados de seus sprays – seus gritos, criatividade e desejos.

Poderia mesmo dizer que Nova York tem cheiro de tinta. Não se vê muitos espaços em que ela não esteja presente nos muros. Diria Benjamin: “O prazer de se achar numa multidão é uma expressão misteriosa do gozo pela multiplicação do número” (BAUDELAIRE apud BENJAMIN, 1994, p. 54).  Sim, esse ambiente que pode te oprimir, pode te libertar. E o graffiti é a conexão. 

... 

 

(Esse é o momento do suspense, haha. A melhor parte do texto só vai para o ar no post de amanhã. Segura a onda aí!)

(Fotos por Karol Agante e AK47 / Texto por Maria Eduarda Gimenes)