Um Colchão e um Nó na Garganta / by AK47

As vezes cometo o erro de ir pra Rua confiante demais, achando que estou pronto pra tudo ... mantendo o feeling de que sou tuff, coração de pedra, que estou preparado para qualquer coisa, armado e protegido. Haha ... pura ilusão!!! As vezes um pequeno gesto de um desconhecido toca meu coração profundamente, e um nó na garganta me surpreende, me deixando com os olhos cheios de lágrimas. Nessas horas me lembro que não sou fortaleza nenhuma! NINGUÉM É!

Saí de casa uma noite com a Karol e caminhamos pelo bairro onde moramos ... BED-STUY my nigga! Como falei em outros posts, esse lugar é uma das grandes bases para a cultura Hip Hop, ninho da cultura negra em NYC, lar de milhares de famílias lindas.

Parei numa esquina pra produzir mais um trabalhinho de uma série que chamo de "Trash Vandal Bombing", onde escolho artefatos descartados no lixo para expor meus riscos e rabiscos. Escolhi um colchão dessa vez. Como as pessoas daqui muitas vezes são um pouco hostis, estava preparado pra ouvir merda de qualquer um que passasse ao meu lado, ou ser questionado pelos moradores porque estava fazendo aquilo.

Mas pelo contrário, fomos surpreendidos por uma mãe acompanhada de seus 3 filhos. Ao invés de passar direto ou repudiar minha atitude, eles fizeram questão de parar pra conversar com a Karol. Enquanto a mãe ensinava aos filhos que aquilo que eu fazia era arte, a irmã mais velha lia meu nome em voz alta, e dizia cordialmente que sabia muito bem que "AK47 era uma arma", haha.

Antes de partir, a mãe permitiu uma foto com uma gentileza bonita de se ver, e disse pra gente com total aceitação e naturalidade:

"- That's ok, my son is a writer too!"  ...  ("-Tudo bem meu filho é um grafiteiro também!")

Da mesma forma que chegaram, partiram pra casa fugindo do frio. Deixaram na gente um sentimento de leveza incrível, nos tornaram ainda mais amantes desse lugar, dessa cultura ... ainda mais adeptos do respeito e do amor verdadeiro pela Rua.

Obrigado Bed-Stuy, já sinto tua falta!

(Fotos por Karol Agante e texto por AK47)